E eu que até sou daquelas pessoas que, no final do Verão, começo a ter vontade de roupa quentinha, de serões a ver filmes, de árvores vermelhas e amarelas e de calcar folhas pelo chão. Do cheiro a castanhas assadas pelas ruas e dos diospiros e das papas de abóbora que a avó faz.
Mas quando o Verão parte assim, sem nos deixar sequer despedir, sem nos termos apercebido que aqueles dias no início de Agosto seriam os dias dos últimos mergulhos, os últimos churrascos, as últimas oportunidades para usar vestidos de alcinhas e deixar os casacos em casa... 
Podem vir só mais uns fins-de-semana com o sol a brilhar? 
Sem ventos, chuvas e trovoadas?
Sem ter que abrir a pasta das fotografias para recordar que ainda estamos no Verão?


Eu sei... sou um bocadinho ridícula...

E ao final do primeiro dia, com a casa tão vazia que se ouvem as paredes falar, as sms já íam assim...

"oh anda lá volta!
Já tive vontade de falar contigo um milhão de vezes e acho que até fiquei um bocadinho com falta de ar quando percebi que não posso pegar no telefone e fazê-lo sempre que precisar.
Relembrei uma coisa muito bonita que me escreveste uma vez que dizia que parecia que as coisas só faziam sentido quando podias vir a correr a contar-mas.
Percebi que afinal não vai ter piada nenhuma dormir na diagonal porque não vais estar na outra ponta da cama quando a meio da noite te procurar com um pé.
E todo o tempo livre que vou ter não tem valor nenhum comparado com a vontade que tenho todos os dias de sair do trabalho e ir a correr combinar coisas contigo.
Anda lá. Mete-te no carro e volta!"





Week plans






Semana sozinha em casa. Todos fora, até o Óscar.
Vou poder dedicar-me completamente ao planeamento da formação.
Ver obrigatoriamente um filme.
Poder fazer pratos especiais que são mais difíceis de reunir aprovação.
Fazer curas de sono e ocupar a cama na diagonal.
Regressar às aulas de ginástica e de yoga.
Reservar tempo para mimos de raparigas.
Esperar cheia de saudades pelos terroristas que trarão vida à casa.





Inícios



As aulas a começarem e a ditarem outro ritmo. Os relógios ordenam-se, a organização afinca, o primeiro quarto foi 'destralhado' e cheira a ordem, convida a entrar e a estar. As roupas ficam prontas na véspera, com hipótese aberta para a chuva que promete aparecer. Uma ansiedade miudinha no ar que tentamos descansar. Este ano vai correr tudo bem!
A manhã a despertar calma, sem pressas. O lanche preparado.
Uma fotografia na lancheira para não ter saudades do Óscar.
E ao sairmos de casa a frase que todos pagaríamos para ouvir - "Até estou um bocadinho contente por a escola começar!"

O poder do menos







É a grande luta lá de casa.
Partilho a vida com rapazes que gostam de muitas coisas. Gostam de ter acessórios que eles pensam que lhes permitem fazer muitas coisas. Que são uns saudosistas que se apegam e quase choram (às vezes há mesmo lágrimas) quando alguém (eu!) decide pôr fora uma manta que já está velha, uma camisola que já não serve ou um frasco que quebrou um dos cantos.

Acredito no poder do menos. E vejo o demasiado com um dos grandes males da fase que vivemos.
O demasiado cansa, desorganiza, faz-nos sentir atolados de coisas, de tarefas para as organizar e sem espaço para inventar, para criar, para viver.

Meaningful




E depois aqueles momentos em que a soma das horas aqui me faz questionar o porquê das coisas.
Porque tenho que contar tantas horas em frente a um computador quando há tantas coisas que gostava e que precisava de estar a fazer.
Tantas peças por tricotar, tantas camisolas por fazer, tantas coisas por criar.
Tantas cores à minha espera.

Às vezes pergunto se é realismo ou falta de coragem.
Não acreditar um bocadinho mais.
Não calar o medo.
Não optar por ficar a contar as horas até poder voltar onde sou eu. Onde sou feliz.