Setembro




Setembro veio crú. 
Mesmo com dias quentes, abafados, de 30 graus, toda a gente sabe que Setembro já não é Verão como os outros. Setembro não é puro nem ingénuo. Não é Agosto. Setembro já não quer nada com a silly season. 
Mas engana... Com aqueles dias com areia nos pés. Com as caipirinhas e as pernas ainda à mostra e camisolas com alcinhas a cair do ombro. 
Nem reparamos que as folhas já estão a começar a cair. As uvas a ameaçar apodrecer. O trabalho a ficar mais pesado. A escola a vir impor-se ao relógio que pensava que ditava as horas. A noite a vir mais cedo. 
Setembro ensina-nos que nem tudo é leve. Nem tudo é quente. Nem tudo é doce. Relembra-nos que existe mundo para lá dos nossos sorrisos e das nossas vontades. Mostra-nos que temos que ser grandes. 
E este Setembro, com esta chuva, assim de repente. E tanta...! A 'lavar-nos', a deixar-nos despidos. A deixar-nos só nós. Tal e qual. 
A solidificar-nos. A deixar-nos como terra. Firme. Pronta para o que vem. 

Estou pronta. Quero crescer. 

Os segundos dias

O fim de semana tão bom e o coração tão cheio de energia para toda a semana. E depois a segunda. Cheia de cinzento. De azares. Contratempos. Mal estar. Desentendimentos. Pesadelos. Notícias tristes. A fazer questionar o mundo em que estamos. Silêncios e costas viradas. Chegar a casa pequenina. Triste. Ainda assim, dobrar as mangas (arregaçar seria dizer demasiado, não havia determinação para tanto). Pôr as mãos na terra. Pegar nos vasos. Sementes. Plantar uns, mudar outros de sítio. A hortelã e o manjericão - que ainda ontem se exibiam resplandescentes, destruídos por uma praga qualquer.

“Vamos tentar salvá-las”

Vamos. Vamos tentar salvá-las.

Não sabemos se vai resultar. Mas fizemos o melhor e no final do dia, celebramos assim…






Na manhã seguinte, estas palavras encontraram-me. E eu nelas. 

"porque é o tempo que nos vai trazer a força que precisamos para enfrentar os segundos dias"


Retalhos do fim de semana












Resumir este fim de semana é fácil - riscar todas as tarefas da lista e render-me aos últimos mergulhos, pés cheios de areia e pele a dourar. Muitos brindes com amigos, muitos amigos, que por muitas circunstâncias nem sempre podem estar, mas que este fim de semana teve o poder de juntar.

Acabou o Verão. Parece que passou a correr, mas bem vistas as coisas, este foram meses em cheio, recheados de coisas boas... Queremos muitos mais assim.


Weekend plans

Pintrest


1 - Aproveitar o sol e o mar

(que bom o Verão a querer despedir-se assim... pode ser que o Outono resolva mostrar-lhe que também é capaz de dias com muito sol!)


2 - Fazer puzzles com armários e tentar que não reste um único caixote de coisas por arrumar. 


3 - Decidir-me por uma destas receitas para dar uso ao caixote de figos que vieram da aldeia. 

4 - Terminar as prendas para o Afonso e o Francisco.  


5 - Celebrar com a casa cheia de amigos. À despedida do verão, às saudades, às metas alcançadas, aos novos planos! Celebrar muito e com muitos sorrisos!



Unconditional true










Travel is the only thing you buy that makes you richer.






Priceless#1









Responder a todas as perguntas sérias e interessadas acerca de cozinhados e receitas vindas de um puto reguila de 6 anos.












Cão como nós



Primeiro é preciso dizer que eu nunca gostei de cães. Que já cheguei a ser mordida. Que inúmeras vezes me esforcei para que o meu corpo não deixasse transparecer o medo que sentia quando algum cão decidia rondar, ou pior, saltar e ladrar perto de mim. Dar festas a um cão era algo que fazia como quem sacode migalhas e só quando tinha mesmo de ser, muitas vezes na esperança que, cumprida a missão, eles fossem embora.

E depois veio o Óscar. E fui descobrindo que ele não é um cão. Ou que é, como nós. E digo, em jeito de 'mãe', que o Óscar é o labrador e o cão mais bonito do mundo.

[Nunca como então eu senti o cão tão perto de nós. Sem propriamente ter mudado de feitio, ele estava por assim dizer mais atencioso, seguia-nos pela casa toda, estava, como nós, à espera, como nós, digo bem, como se fosse um de nós. E tenho de reconhecer que era. Um grande chato, sim, um cão rebelde, caprichoso, desobediente, mas um de nós, o nosso cão, ou mais que o nosso cão, um cão que não queria ser cão e era cão como nós"]

Já o conheci tarde. Com doze anos. E apesar de tanta gente dizer que não parece nada, por ter tão bom ar e tanta energia, sabemos todos que a idade não perdoa e vai mostrando alguns sinais.

Ainda há uns tempos, acordou a mancar e ficamos todos num pânico triste, a dizer que ía passar, mas com medo que assim não fosse e que fosse um princípio do fim.

[Alguém falou da tristeza e do vazio do olhar dos animais. Vi tristeza, em certos momentos, no olhar do cão. A tristeza de quem quer chegar à palavra e não consegue. Mas não vi o vazio. O vazio está talvez nos nossos olhos. Quando por vezes nos perdemos dentro de nós mesmos. Ou quando buscamos um sentido e não achamos. O cão sabia o sentido, o seu sentido. E nunca se perdia.]

Já o conheci tarde. Não o vi nos festivais nem a nadar pelo mar adentro. Nem a puxar ninguém de patins pela trela. Mas vi-o a conquistar-me aos bocadinhos, com a sua atenção, que passou a dividir-se. Com as manhas e os mimos de quem sente que eu ía ficando rendida e capaz de lhe fazer todas as vontades. "E qual é o problema? Com doze anos um cão já tem direito a ter algumas mordomias". Eu não cheguei para ensinar, isso ele já sabe!

[Cão é cão. Mas de certo modo fomos ficando mais próximos, diria até mais companheiros.

Ele vinha deitar-se ao pé de mim sempre que eu estava a ler, a escrever, ou simplesmente a ver televisão. E à hora da refeição foi junto à minha cadeira que ele passou a enroscar-se, cada vez com mais frequência.

Eu gostava. Comecei até a ter um certo orgulho nisso e a sentir uma íntima satisfação com os ciúmes que essa atitude do cão provocava nos restantes membros da família.]

Não sei se foi tarde... Se calhar é assim a melhor forma de se conhecer alguém. Quando temos presente, a todo o instante, que não vai ser eterno.

Todos os dias sinto o privilégio de poder passear com ele, às vezes até conseguimos ir dar um passeio por entre as árvores logo de manhã (e esses dias correm sempre de forma diferente). E quando não há trabalho, levo-o para todo o lado, pela trela ou no banco ao lado do condutor, janela aberta e focinho de fora com orelhas no ar.

[É quanto me chega. As minhas armas e eu. O meu cão e eu]

Este Verão quase não fomos à praia. Os ares do mar fazem o Óscar esquecer-se da idade e das boas maneiras. Desata a roer toalhas e a escavar buracos por todo o areal. Só pára quando vimos embora. Quando começou a mancar o médico disse logo que era proibitivo e mesmo depois de melhorar toda a gente achou melhor não arriscar. É que além disso, já ninguém tinha paciência para aturar aquele histerismo. Mas quando o levávamos, dava gosto de ver. O rabo a abanar ainda mais rápido e o focinho a tentar guardar pedaços daquele ar. 

[Dei então por mim a conversar com o cão, sempre que estávamos sós. Digo bem: conversar. Porque se ele não chegava, como pretendia, à enunciação, não tenho dúvidas de que compreendia a humana fala. Pelo menos a nossa.]

Era o que no outro dia dizia - "gostava de conversar com o Óscar, nem que fosse por cinco minutos". 

Ainda não descobri como. Até lá, aproveito-o, como quem aproveita os últimos dias de Verão.


Excertos do livro "Cão como nós", de Manuel Alegre, que li há pouco tempo, num ápice.